Promiscuidade Jornalística

Friday, December 01, 2006



Erro!

Palavras para o título não encontradas.... , por Jordana Mamede

Sem vergonha, anuncio minha ruína. Em derrocada, “quase” jornalista formada, encontro-me no mar do silêncio e ausência na ponta do lápis. As palavras, que de uma geminiana são companheiras eternas, rareiam como coca-cola (muito gelada!) no deserto. Sumiram do mapa, escafederam-se, foram embora para algum tipo de Pasárgada.
Anos e anos de leitura, reunindo adjetivos e substantivos – até em outras línguas – na vã tentativa de formar um exteeeeenso vocabulário, digno de uma academia de letras, onde quer que fosse, e vejo essa lista me deixar repentinamente, abruptamente. E a moça aparecer, elegante.
Posso até descrever, mesmo com minha competência enciclopédica furtada na calada da noite, que foi exatamente no momento que adentrou ao palco uma “certa” senhorita: menina danada, mãos longas de rubras unhas, agarrada na barra da saia.
Quase quebrável de tão franzina, quem adivinharia que ao cantar, recitava um bálsamo, mantra, lotando os corações e apagando os pecados? Foi aí que ela levou a metade de um poema e o lead de uma notícia que eu havia feito antes do jantar.
Daí em diante, o que sucedeu?! A perda de conceitos, palavras, títulos, músicas, um script para um programa de rádio, a lista de compras, o jogo do bicho e a megasena. Eu via ali o glamour personificado, o estilo ganhar significado novo e o orgulho crescer e aposentar a inveja. Joguei La Rousse, Aurélio e Oxford no lixo, montes de páginas desvalorizadas!
Ah, e de que modo poderia ser diferente? Se doce e mansa – tímida mesmo, de corar as maças – desfez-se em cena, jogando as pétalas, sem saltos ou máscaras. Parecia até desdenhar, a menina! Com gestos que mal ocupavam espaço, regia minimalisticamente (como uma gueixa contida) a sinfonia dela só.
Eu fui murchando... murchand... mur... Até que engasguei por um instante e esqueci meu nome. Sic. Perdi a voz, e as forças eu deixei por lá, vagando nos espaços espremidos por uma platéia em ovações. Desconfio depois de dias, que o culpado foi o denso sonido das baladas tão despretensiosamente propagadas no ar. Desejei estar no espaço, onde o vácuo mantém taciturno qualquer som.
Em meu exílio, incomunicável, calada por uns dias fiquei. Lembrei-me do silêncio, prolongando-se, dela, sua voz. A explosão do início, a crescente no palco, o preto, as luzes cor de bergamota. Roberta Sá, no baixo verão, em uma noite quente de um novembro esmaecendo, me tomou as palavras. E por mim, pode ficar com elas o quanto quiser.

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