Promiscuidade Jornalística

Sunday, December 03, 2006

High-tech, I'm out!

Meu universo é estático no tempo, ou melhor, mal passou dos anos 80. Chego a essa conclusão quando me dou conta que tenho em meu quarto um aparelho de tv da marca SHARP, que nem se quer existe mais. Antes, era uma Nacional, daquelas que tem uns pitocos pra sintonizar com ajuda de um palito tipo de pirulito. Que sintonia fina que nada! Muito menos auto-programação. E ainda dizem que a classe média aumentou o poder de compra...
Não me baseio em um fato que se constitui exceção. Não meus caros, outros artigos de luxo – para qualquer museu da imagem e do som– figuram em minhas posses, e eu me agarro a elas com um zelo de objeto novinho. Nunca se sabe quando um treco desses vai voltar a fazer sucesso, coisa que eu muito desconfio que vá um dia acontecer. Porém, por via de todas as dúvidas... Porque não?!
Um walkman, que toca sempre uma fita da aula de espanhol(El Zoro) e só sintoniza rádio evangélica. Parece que aquele treco não conhece uma antena, ou se um dia a teve, esses foram poucos. Montes de canetas enfeitadas, que quando as comprei no mercado das quinquilharias da China, tinham cheiro, cor, mas que hoje não passam de inanimadas futilidades que me lembram a todo momento duas coisas: que nunca serviram pra escrever e ainda custaram uma nota preta. Ainda bem que um dia a gente cresce e abandona essas manias!

Friday, December 01, 2006



Erro!

Palavras para o título não encontradas.... , por Jordana Mamede

Sem vergonha, anuncio minha ruína. Em derrocada, “quase” jornalista formada, encontro-me no mar do silêncio e ausência na ponta do lápis. As palavras, que de uma geminiana são companheiras eternas, rareiam como coca-cola (muito gelada!) no deserto. Sumiram do mapa, escafederam-se, foram embora para algum tipo de Pasárgada.
Anos e anos de leitura, reunindo adjetivos e substantivos – até em outras línguas – na vã tentativa de formar um exteeeeenso vocabulário, digno de uma academia de letras, onde quer que fosse, e vejo essa lista me deixar repentinamente, abruptamente. E a moça aparecer, elegante.
Posso até descrever, mesmo com minha competência enciclopédica furtada na calada da noite, que foi exatamente no momento que adentrou ao palco uma “certa” senhorita: menina danada, mãos longas de rubras unhas, agarrada na barra da saia.
Quase quebrável de tão franzina, quem adivinharia que ao cantar, recitava um bálsamo, mantra, lotando os corações e apagando os pecados? Foi aí que ela levou a metade de um poema e o lead de uma notícia que eu havia feito antes do jantar.
Daí em diante, o que sucedeu?! A perda de conceitos, palavras, títulos, músicas, um script para um programa de rádio, a lista de compras, o jogo do bicho e a megasena. Eu via ali o glamour personificado, o estilo ganhar significado novo e o orgulho crescer e aposentar a inveja. Joguei La Rousse, Aurélio e Oxford no lixo, montes de páginas desvalorizadas!
Ah, e de que modo poderia ser diferente? Se doce e mansa – tímida mesmo, de corar as maças – desfez-se em cena, jogando as pétalas, sem saltos ou máscaras. Parecia até desdenhar, a menina! Com gestos que mal ocupavam espaço, regia minimalisticamente (como uma gueixa contida) a sinfonia dela só.
Eu fui murchando... murchand... mur... Até que engasguei por um instante e esqueci meu nome. Sic. Perdi a voz, e as forças eu deixei por lá, vagando nos espaços espremidos por uma platéia em ovações. Desconfio depois de dias, que o culpado foi o denso sonido das baladas tão despretensiosamente propagadas no ar. Desejei estar no espaço, onde o vácuo mantém taciturno qualquer som.
Em meu exílio, incomunicável, calada por uns dias fiquei. Lembrei-me do silêncio, prolongando-se, dela, sua voz. A explosão do início, a crescente no palco, o preto, as luzes cor de bergamota. Roberta Sá, no baixo verão, em uma noite quente de um novembro esmaecendo, me tomou as palavras. E por mim, pode ficar com elas o quanto quiser.