Promiscuidade Jornalística

Monday, March 19, 2007

Meu amigo, o cabrón – por Jordana Mamede

Tenho um amigo excêntrico, a começar pelo sobrenome inusitado, nome de fruta da Amazônia e refresco com gás. Fosse só isso, tudo ficaria na linha da singularidade e a conversa estaria muito mais pra verbete de almanaque de curiosidades. Fosse, mas o uso do verbo no passado já expõe que não é.
Pelo que me lembro, tudo começou quando o rapazote voltou de longo périplo pelas terras acima dos Grandes lagos, onde nada é proibido. Dois meses, e o estudante de inglês, se apaixonou (literalmente!) pela língua mexicana. COMUNICACIÓN, meu caro! De volta ao Brasil, há um mês que mudou o nome, e só atende por CABRÓN, seu novo APELLIDO( com dois ll, que é pra significar sobrenome, só que em espanhol).
Odiando negar pedidos ou até exigências fraternas, eis que entro na brincadeira e também, profundamente, na “Gramática práctica de la lengua espanhola”. Pois o TONTO decidido a viver a cultura mexicana, só come TACOS, BURRITOS y QUESADILLAS(Sim, o “e” em espanhol é “y”). Achou derrepente que “NO ME GUSTA” feijoada com couve frito ou muito menos paçoquinha. Tudo que engole tem no meio flocos de CHOCLO.
Já a par de todas as prezepadas, em breve passagem pelas plagas paulistanas, eis que não pude deixar de me assustar ao ver que além da comida brazuca refugada, o cabrón só bebe CORONA(sem esquecer de misturar pimenta, sal e limão, a famosa MICHELADA). “Estoy aterrada!”, pensei em espanhol, com direito até a ponto de exclamação de cabeça pra baixo...
Coisas pequenas foram sendo adicionadas ao seu repertório cotidiano. “Buenos dias!”, saudou o porteiro do prédio com esmero de um hablante nativo. A CNN en español passou a ser o canal PREDILECTO. Já nem devotava afeição ao tricolor paulista, agora carregava no peito o AZUL y AMARILLO, cores do San Luís, depois de descobrir o magnífico time através de uma rápida consulta ao “Guia de los servicios públicos de San Luís Potosí”.
Certo dia, foi visto plantando NOPALES na praça da Sé, e usando um SOMBRERO na 25 de março. Grande fã de Manuel Bandeira e seus poemas, pichou no túnel Ayrton Senna “Vou-me embora pra Oaxaca”, além de ter declarado simpatia pela causa dos CHIAPAS. Não esquecendo a foto que tirou beijando a bandeira mexicana, com legenda “Gracias, Mexico!”, coisa de BARBERO BOBO o JALA BOLA dos maiores que existem!
O que me falam é que hoje em dia, o NIÑO freqüenta bares latinos a procura de sons de REGGAETON, MARIACHIS, não perdoando nem RBD e o meloso banda MANÁ, com “lábios compartidos”. Ah! E nunca fica bêbado, vive BORRACHO! Está tão ACOSTUMBRADO com tudo, que chora assistindo Maria del Barrio, sofre como um cão ouvindo “Por uma cabeza”, de Gardel e entende perfeitamente o humor sarcástico dos filmes de Almodóvar. Que super-homem que nada! Seu super-herói é EL ZORO!
Cabrón, meu amigo mais que querido que um dia falou em Pátria Amada, hoje se despede dos íntimos com CUIDATE MUCHO ou TE QUIERO MUCHO. Não posso negar que quase me esqueço as vezes, e encerro minhas mensagens com um BESOTES no final, além de amar PULPARINDO. É a febre latina. Podemos ter deixado o Canadá, mas o México nunca nos deixará.

CANGACEIRO BENTO? - Por Filipe Marques

Quem nunca ouviu falar da beleza bucólica de Maria Bonita, da bravura e da vaidade de Lampião e de seus capangas, com certeza, conhece muito pouco da história do cangaço nordestino. No máximo deve ter sabido de causos e anedotas que davam conta de Lampião hora como herói, hora como bandido. Certeza maior é ninguém ter ouvido falar que cangaceiro fosse santo. Pelo menos até agora! Por que é exatamente isso que acontece na cidade de Mossoró, região do Seridó norte-rio-grandense.
Lá pelos idos da década de 20, a trupe de Lampião já tinha saqueado, matado e esfolado por tudo quanto fosse interior do nordeste. Como de costume, o grupo analisava a região onde aportavam e decidiam quais seriam os melhores lugares para a “labuta”. Resolveram que a próxima parada seria na abastada cidade de Mossoró, onde pensavam obter muito lucro. A cidade tinha sido avisada, mas ninguém acreditou, a não ser o prefeito.
Na tarde de 13 de junho de 1927, no meio de uma chuva que caía, ouviram-se os primeiros disparos. Teve quem pensasse que fosse barulho de trovão. Rodolfo Fernandes, o prefeito, recebeu do próprio Lampião um ultimato cobrando 400 contos de réis pra deixar a cidade em paz. O prefeito negou o pedido. Os bacamartes cuspiram fogo...
Naquele dia Mossoró só dispunha de pouco mais de 20 soldados. O prefeito organizou a resistência e se entrincheiraram como puderam em meio a sacas de algodão. Entre uma saraivada de bala e outra, o grupo de Lampião perdeu dois dos seus mais destemidos homens, Colchete, que morreu de tiro, e Jararaca que ferido, foi capturado pela polícia.
José Leite de Santana, o Jararaca, penou quatro dias na cadeia pública da cidade, ferido no peito e nas pernas. Na noite de 18 de junho, foi levado para o cemitério. A guarda que o conduzia, obrigou o cangaceiro a cavar a própria cova. O soldado João Arcanjo o sangrou, mas o povo diz que o bandido foi enterrado ainda vivo. Tinha apenas 26 anos.
Alguns dizem que Jararaca morreu de sede, clamando por um copo dágua. Mesmo oito décadas depois de sua morte, seja pelos diferentes rumos que a história toma, seja pela religiosidade pura e simples do povo, Jararaca é venerado por milhares de pessoas que acreditam que o cangaceiro é milagroso.
Todos os anos, durante o dia de finados, o túmulo de Jaraca é, de longe, o mais visitado da cidade. Apesar de mais pomposo e imponente, o túmulo do prefeito Rodolfo Fernandes, herói da resistência, pouco é lembrado pelo povo.
Episódio épico da cidade de Mossoró, a resistência ao bando de lampião deixou cicatrizes não apenas no imaginário da população. Ainda hoje é possível ver as marcas de bala na torre da igreja e em outros prédios da cidade.
A casa do prefeito Rodolfo Fernandes, atualmente é a sede da prefeitura. Com o imponente nome de Palácio da Resistência, o local foi palco da batalha contra Lampião e seus comparsas.